por Pedro Schmidt

26/01/2018

 

Eu me afastei da minha família por opção, não houve briga e não houve discussão, mas também não houve afinidade ou perda, me afastei de uma maneira tão natural que é como se ali eu nunca estivera. Gostaria de dizer que apesar disso a peça me tocou, mas a verdade é que a peça me foi cara exatamente por eu não ter este contato rotineiro. O tema é abordado tão completamente e de tantos ângulos diferentes que temos uma visão quase cubista do relacionamento familiar, criando exatamente este sentimento de assistir a tudo de fora ao mesmo tempo em que se está vivendo cada discussão ou impaciência naquela sala de estar pequena demais onde cabem todas as famílias do Brasil. Entrar em contato com os conflitos da peça é viver todas as angústias de uma rotina sem que elas se diluam nos anos. Se conversas mundanas e idiossincráticas nos fazem perceber que estamos todos ali representados, o ódio cego do preconceito e a alienação intransigente da ignorância confortável nos reflete irriquietamente, criando autodiscussões incômodas que novamente submergirão a um estado de rejeição consciente quando nos recusarmos a falar o que realmente pensamos, mesmo para aqueles de quem não deveríamos esconder nada. Mas da ausência de fronteira entre o que é sonho e o que é lucidez nasce a beleza e o encanto de passagens dramaticamente joyceanas como a verdade que se desprende de uma mentirosa compulsiva ou a linguagem própria de uma mente senil que se esforça pra lembrar o que nunca esqueceu. Pela conflitante incerteza na validação da veracidade dos sentimentos temos acesso a uma conversa quântica sobre a descoberta da fragilidade da vida, à vitória sobre a dor sempre presente em uma entrega derradeira e ao eterno nascimento de inúmeras pessoas dentro de uma só. Se o sentimento gerado foi real ou falso? Assim como em toda obra de arte, ele simplesmente foi e se mais nada pode ser extraído daquela estranha sensação de viver experiências que não são suas, mas que lhe pertencem, pode-se entender que na vida não existe o verdadeiro ou o imaginário, a vida somente existe e que isso já deveria ser o bastante, como no sangue da irmã discriminada que derreterá no asfalto e fará florescer a revolta dentro de seu sobrinho. Sangue, asfalto e revolta que, como colocou João Ubaldo Ribeiro, são a mesma coisa e ao serem a mesma coisa não são reais nem imaginários, simplesmente são.

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