por Tarcízio Dalpra Jr.

29/11/2017

 

Jonathan Gottschall, no seu livro “The Storytelling Animal” é categórico ao afirmar que a espécie homo sapiens poderia muito bem ser chamada homo fictus, tamanha a sua capacidade de criar e consumir histórias. Eu mesmo, toda vez que abro um livro, dou um play na Netflix, entro em uma sala de cinema ou num teatro, escancaro a minha face muito mais fictus do que sapiens. Eu preciso de boas histórias. Eu quero acreditar em boas histórias. Defendo a máxima “aliciana” de Carroll, de que a imaginação é a nossa única arma contra a realidade. Por isso, quando pisei o acanhado salão do Museu Ferroviário, para assistir ao espetáculo “Essa Estranha Sensação de Família” tratei de ligar imediatamente a suspensão da descrença, ansioso para embarcar em mais uma boa ficção. Faltou combinar isso com o elenco. Dentre as principais plataformas narrativas, o teatro talvez tenha a missão mais difícil quando o objetivo é transpor o receptor do mundo real para o mundo fantástico. Se o audiovisual projeta hiper-realidades cada vez mais convincentes, com seus recursos de produção, transmissão e recepção, e os livros, por sua vez, mantém quase intacto o ritual contemplativo de deixar que as histórias floresçam de maneira muito particular na imaginação de cada indivíduo, o teatro fica num meio termo em que o imagético salta à narrativa, mas exige que o pacto entre atores e plateia esteja firmado. “Vou te dar pistas estéticas para que seu imaginário, uma vez suspendida a descrença, se encarregue do resto”, diria o diretor teatral. Mas também não foi isso que o Diogo Liberano fez. Fato é que a crueza do espetáculo a princípio incomoda. É como se profanassem deliberadamente o sacro templo teatral, recebendo a plateia sem cenário, trilha, desenho de luz, fumacinha ou qualquer outra alegoria. À medida que o público entra, os atores – muito provavelmente com as roupas que vestiam desde o início do dia – interagem de forma amigável, intimista, cumprimentando conhecidos ou discutindo detalhes para o início da peça. Lembrei dos bons tempos de teatro de bar. Mas as lembranças terminaram ali. Com o início do espetáculo a gente percebe que o nu estético é proposital. Mais do que isso: é condição fundamental para que a narrativa se desenrole. E ela parte de uma dramaturgia que funciona como uma partitura musical, com notas milimetricamente decifradas por cada membro do elenco. São altos e baixos melodiosos, com risos e lágrimas, tensão e serenidade, dor e prazer. A estrutura narrativa funciona de tal forma que até a temática demodè que se propõe a costurar as cenas é relegada a um segundo plano. Ainda bem, porque demonizar a pobre TV em plena era pós-digital me parece meio que chutar cachorro morto. Uma bandeira oitentista demais para disputar espaço com outras tão atuais e relevantes levantadas pelo próprio texto. Mas eu digo: Oh Cride, fala pra mãe que isso não chega a ser um problema. Porque a dramaturgia é rica. Em forma e conteúdo. E a direção aproveita isso muito bem. Benditos os que dominam a multidisciplinaridade teatral, capaz de construir um texto impregnado de significados, para depois traduzi-lo em ação, explorando toda a sua potencialidade. Um texto que tem a generosidade de não impor um breaking point específico à plateia. Ao contrário, é ela quem decide o momento em que o gatilho narrativo vai ser disparado, à medida que se identifica (ou não) com algum dos personagens/cenas/textos projetados. Pode ser um. Podem ser vários. Pode até não haver. O que não significa que o público vá passar incólume pela trama. E aos poucos, toda a crueza alegórica vai sendo preenchida por atuações impressionantes. Nada mais faz falta. O Rodrigo eu não conhecia. Seu cartão de visitas: um monólogo visceral sobre nossas várias mesmas mães. Hipnotizante. E foi apenas o ápice de uma série de excelentes momentos. A Vivian eu já vi de passagem. Mas agora conheci a atriz. A presença impressiona, e o balé cênico não se dá apenas no corpo, nos gestos... Ele está em cada fala. A cena em que encarna uma espécie de obsessiva-compulsiva eleva o espetáculo a outro patamar, num ritmo difícil de acompanhar. O fôlego da plateia vai ao limite. O dela não. A Carol é uma atriz pronta. O que pode soar estranho, porque cada vez que a vejo em cena parece melhor. Daria um loop infinito na cena final. Compraria quantos ingressos eu pudesse pagar, só para assistir àquele desfecho. Ali eu entendi: o que de fato suspende a descrença é muito mais alma do que adereço. Tem muita técnica sim, mas tem alma demais na Carol. Falar dos (ex)Putz! pode soar meio piegas – aliás, esse texto todo começou a soar. Mas foda-se. Foi bom rever o Zé ator que, há algum tempo, tem se escondido atrás do burocrata. Ele tá muito vivo! Talvez valesse à pena revisitá-lo mais vezes, meu amigo. Pra quem conheceu a Angel lá atrás, menina de uma personagem só – ótima, diga-se de passagem – vê-la em cena hoje é extasiante. Mulher e atriz completas, multifacetadas. É impossível não rir de você. É impossível não se emocionar com você. Poucas vezes vi o Thiago tão pleno em cena – salvo alguns momentos como Menina Pastora. Olhar pra ele e simplesmente não reconhece-lo chega a ser assustador. Buscar, ali mesmo, no meio da cena, traços familiares de uma comicidade inata e só encontrar a aspereza da pele de um velho gagá... Sensacional. Acho que as incursões pela dramaturgia te fizeram bem, meu amigo. Te fizeram viver as histórias de forma mais profunda. A verdade é que os atores acabam funcionando como as diferentes cenas do espetáculo. Fortes e convincentes por si só. Mas muito mais poderosos quando reunidos. Entrei procurando uma boa história. Saí com várias em uma única. E ao final, em cada abraço de despedida, fica mais que uma sensação de orgulho ou admiração. Fica essa estranha sensação de família.

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