por Felipe Moratori

27/11/2017

 

Vou reestruturar a fala que fiz no bate-papo: na vida ordinária a gente não costuma ir direto ao ponto. O não-dito é o lugar mais comum nas “sensações de família”. Então é fácil compreender que não se diz coisas importantes de qualquer jeito, e, especialmente, não se recebe essas coisas importantes de qualquer jeito. Saber receber é a forma mais eficaz de valorizar o que é dado. “Essa estranha” é um espetáculo construído essencialmente “indo direto ao ponto”. É aí que vejo uma dificuldade geral do elenco. Não tanto no dizer, mas no escutar. Dois momentos me pareceram muito bem realizados na sessão que assisti: Zezinho, o pai preconceituoso, escutando Carol, a filha. E Angélica e Rodrigo, os netos, escutando o vô, Thiago. Em outros, o texto vem carregado de “efeito de texto”, e, nesse sentido, como o que está sendo dito tem impacto por si só, a cena funciona. Porém, acredito que o geral possa funcionar mais no que poderíamos chamar de “efeito dos atores”, se trabalharmos melhor a escuta.

No geral, também sinto que o ritmo do espetáculo, por conta das fragmentações da dramaturgia, está acelerado. Entendo que a sensação de rapidez deva ser externa, nas dinâmicas de movimento e no encadeamento entre uma cena e outra (afinal, a peteca não pode cair, né...) mas sinto que internamente seja necessário trabalhar com suspensões. Todo o jogo entre vocês pode ser menos ansioso e mais dilatado. Se tematicamente a suspensão interna valorizará a dificuldade de pôr pra fora as confissões, as verdades, o que precisa ser dito, e traz metaforicamente “essa estranha sensação de família”, em temos de movimentação a suspensão interna terá potencial de equilibrar o jogo com cenas tão curtas e ágeis.

O terceiro e último ponto com que posso contribuir é uma dúvida mesmo: no trabalho de vocês não se deseja uma unidade com relação à estética, certo? Digo isso, porque entendo que o viewpoints abre um amplo espectro de possibilidades de composição, mas ele não determina necessariamente uma estética. E, claro, ele não precisa determinar nada. Se ele é um modo de estruturar o tempo e o espaço no jogo, posso usar viewpoints numa estética pautada no movimento, e esse será o resultado da minha composição... mas posso também usá-lo no cinema realista, reduzindo as dinâmicas a impulsos internos, correto?

Eu gosto do jogo físico de vocês porque ele me traz teatralidade: o acidente de carro, a lagartixa... o Felipe gostaria de ver mais dessas soluções, porque elas agradam o Felipe e apontam uma estética especifica. Outro espectador pode nem se ocupar disso e ter outra onda, e tá tudo ok... Mas em grande parte do trabalho (talvez isso predomine), o que a gente encontra são monólogos com carga emocional em que os atores parecem assumir a busca por esse tom de sensibilidade (não quero usar a palavra drama, que ela é complicada), mas enfim, um tom que me conecta essencialmente ao discurso e à habilidade individual dos atores em trabalhar essa subjetividade. Então, resgato: vocês desejam essa unidade? Porque, se desejam, há um grande trabalho a se explorar em busca de evidenciar os caminhos estéticos. Até porque parte dos atores parece mais familiarizado (nesse sentido curtem mais) o jogo físico e outra parte curte mais viver isso que to chamando de tom emocional.

Bom, é isso. Espero que eu tenha sido claro, eu juro que tento ser o mais claro possível. rsrs Mas podemos conversar pessoalmente também. Um grande beijo a todos vocês!
 

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