por Aline Rodrigues

25/11/2017

 

Estranhamente, me sinto medrosa de dizer o que quer que seja sobre a obra “Essa Estranha Sensação de família”. Ironicamente, a pergunta cavada na dramaturgia da peça é “ Porque nunca dizemos o que queremos dizer?”. Talvez porque a palavra está sempre correndo atrás de acompanhar o desejo que é mesmo indizível, errático, insatisfeito. Talvez porque querer dizer a “verdade” é querer também se proteger, não se jogar no abismo e a verdade é justamente um salto no abismo silencioso e vazio. A trama me faz mais não querer dizer nada e isso é maravilhoso, porque é como se a sensação do espanto misturado à contemplação dos atores em cena, no fio do encontro entre ser e fingir ser, seja melhor expressa nos olhos e na puxada de ar. O que dizer? Quando digo, quem me olha? Quando não digo, quem confia em mim? Vou jogar palavras: intimidade. Dizer o bem dito, não necessariamente a verdade, é estar íntimo. Quem é intimo de quem? Onde está a intimidade de uma casa? O estranho é aquilo que nos foi familiar e do qual fomos privados. Intimo vem do latim TIMIDUS, “aquele que tem medo” e IN, “ de dentro, do interior”. Mergulhar juntos nesse medo interior profundo e continuar respirando é uma possibilidade e uma escolha dos artistas. Parabéns a esse trabalho que convida para tal possibilidade, afirmando a escolha de um teatro intimo, generoso, entregue, interessado no abismo e que sorri pra ele. Parabéns à sua composição que nos carrega para essa estranha familiaridade que conecta o artista a seu público.

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